ENTREVISTA: ANNA MARIA NASCIMENTO DAMIANI
A educadora coloca em prática a Pedagogia Hospitalar em projeto desenvolvido no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus, em São Paulo.
Por Luiza Oliva
A vida de uma criança internada em um hospital reserva sensações e limitações muitas vezes difíceis de serem vencidas até por adultos. Os profissionais envolvidos com seu tratamento nem sempre lhe trazem boas notícias ou atividades prazerosas. O médico frequentemente fala em uma linguagem complicada para a compreensão infantil. O nutricionista invariavelmente retira do cardápio gostosuras que ela adora saborear. O assistente social limita as visitas. O fisioterapeuta exercita o corpo, por vezes acarretando dores. “Por último chega o educador, que traz a alegria de viver, que continua a vida que essa criança tinha fora do hospital”, afirma a educadora Anna Maria Nascimento Damiani, que define a Pedagogia Hospitalar como uma área ainda desconhecida por muitos professores e uma tarefa complexa. “É um processo educativo não escolar que propõe desafios aos educadores e possibilita a construção de novos conhecimentos e atitudes.”
Há três anos Anna Maria coordena o trabalho de Pedagogia Hospitalar no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus, em São Paulo. No hospital, Anna e a psicopedagoga Mara Rúbia Nascimento Lino Andrade acompanham crianças internadas, as que passam pelo Hospital Dia e as que frequentam o ambulatório do hospital. O Menino Jesus atende crianças e adolescentes até 19 anos de idade, procedentes das diversas regiões da cidade e até de outros municípios e estados por ser referência em pediatria.
O interesse de Anna Maria pela Pedagogia e pelo atendimento a crianças hospitalizadas começou quando atuava como bióloga no Hospital das Clínicas, também em São Paulo. “Sou especialista em síndrome de Down e percebia, em meu contato com as mães no hospital, suas dificuldades com seus filhos com Down em classes regulares, numa época em que pouco se falava de inclusão. Assim começou minha paixão pela educação”, lembra. Cursou então Pedagogia, depois Psicopedagogia clínica e institucional, e se especializou pela PUC-SP em Psicopedagogia Hospitalar, com mestrado em distúrbios do desenvolvimento pelo Mackenzie. Hoje, doutoranda em desenvolvimento infantil na PUC-SP, pesquisa crianças internadas em UTIs em fase terminal.
Anna Maria é organizadora do livro Pedagogia Hospitalar – Novos rumos, publicado pelo Programa de Estudos sobre Dificuldades de Aprendizagem (PEDAP), e acredita na urgente necessidade da formação dos educadores na área. “Recebo no hospital muitas formandas em Pedagogia que estão fazendo o TCC em Pedagogia Hospitalar e quase não têm conhecimento sobre o assunto. Não há, na grande maioria dos cursos, a disciplina de Pedagogia Hospitalar. Dou aulas no ensino superior há cerca de 16 anos e sinto que a matriz curricular da Pedagogia é falha. As 3200 horas para se formar um pedagogo hoje não são suficientes. Precisamos acrescentar horas e conteúdo aos cursos, abordando a diversidade humana, encarando o outro com competências, habilidades e criatividade, para que nossos novos professores saiam bem formados para atender a uma sociedade contemporânea inclusiva”, acredita.
A especialista comenta que nos hospitais é mais comum a existência apenas de brinquedotecas, apesar da continuidade dos estudos no ambiente hospitalar ser garantida legalmente. Anna Maria frisa que o trabalho das classes hospitalares vai além de oferecer momentos lúdicos às crianças. Ela aponta para a necessária parceria com todos os setores do hospital. Jocely Cristina Aquino Santos, enfermeira supervisora do ambulatório de especialidades e do Hospital Dia do Menino Jesus, conta que indica os pacientes para Anna Maria e Mara. “Fiquei encantada com o projeto, é uma sala de aula no hospital. As enfermeiras informam a escolaridade das crianças e encaminham os pacientes para o trabalho escolar.” O pediatra Antonio Carlos Madeira de Arruda, diretor executivo do Hospital Menino Jesus, reconhece a importância do projeto: “Nós, médicos, acabamos envolvidos no cotidiano de um hospital com tantos problemas da área médica que é necessário vir alguém de fora para nos alertar sobre a importância da Pedagogia Hospitalar. Foi o que fez Anna Maria ao nos propor o projeto. Principalmente para internações de longos períodos, ele é essencial para as crianças.”
Anna Maria reconhece que, na rotina de um hospital, nem sempre os profissionais da área da saúde envolvidos ficam atentos para a questão pedagógica dos pacientes. “O médico tem como objetivo salvar vidas. Nós lidamos com a necessidade daquela criança doente continuar sonhando, pensando, aprendendo”, aponta. Para a psicóloga do hospital, Giselle Sogayar Bechara, as classes hospitalares também são importantes para trabalhar a aceitação e a autoestima dos pacientes. “As crianças com fissura labial atendidas, por exemplo, têm alterações de fala que interferem na aprendizagem. Percebo que em termos de sociabilidade o ganho de todas as crianças atendidas é enorme”, diz.
A parceria entre a atuação pedagógica no hospital e os professores da escola também surtem bons efeitos. Mara Rúbia comenta que são enviados relatórios de cada criança atendida à escola, através da família.
“Em alguns casos fazemos contato com a professora ou coordenadora e o retorno é que o trabalho que desenvolvemos auxilia a equipe da escola. Lembro de uma menina com fissura labial que era vista pelos colegas como um bichinho feio, até por ser muito arteira. Hoje, depois do trabalho conjunto no hospital e com a escola, ela está verdadeiramente incluída em sua escola”, lembra a psicopedagoga.
Em meio às aulas do curso de extensão em Pedagogia Hospitalar e de pós-graduação na área (com certificação pelas Faculdades Integradas Paulista), e aos atendimentos às crianças do Menino Jesus, Anna Maria Nascimento Damiani recebeu a equipe deDirecional Educador para esta entrevista.
DIRECIONAL EDUCADOR - Como é a prática do pedagogo dentro de um hospital? O atendimento pedagógico fica em segundo plano em relação aos cuidados médicos necessários a uma criança internada?
ANNA MARIA NASCIMENTO DAMIANI - Temos uma rotina e aprendemos a lidar com ela. Os médicos, as enfermeiras, fazem as consultas e prestam os cuidados necessários, e nós ficamos esperando o nosso momento. Depois que a criança fez sua higienização e passou pelos atendimentos, entramos no leito da criança e ficamos por uma hora, uma hora e vinte minutos aproximadamente, para dar continuidade aos seus estudos. E é o momento de maior descontração dela no hospital. Depois vem o almoço e temos que deixar o quarto, e após o almoço vem uma outra equipe médica e de enfermagem. Eu e Mara atendemos cerca de 30 crianças por semana. Além disso, passam pela classe hospitalar 27 crianças em atendimento semanal, que não são internadas. São casos de crianças com dificuldades de aprendizagem, comportamentais, de leitura e escrita, no raciocínio lógico, hiperatividade. Fazemos o atendimento psicopedagógico, de consultório. São crianças encaminhadas para nós pelo neurologista ou pelos psicólogos do hospital. Atendemos um grupo com fissura lábio-palatal. São crianças e adolescentes que já passaram por correção cirúrgica e necessitam de apoio psicopedagógico.
O que fazer para estimular outros hospitais a ter esse tipo de atendimento?
Aqui temos um espaço pequeno e somos voluntárias no projeto, não geramos custos para o hospital. Acredito inclusive que o atendimento pedagógico hospitalar é independente do hospital ter um espaço físico para o pedagogo. Esse educador pode vir para o hospital com uma malinha, por exemplo, com todos os seus recursos didáticos e visitar os leitos. É essencial ter o apoio do hospital, que a instituição de saúde abria suas portas para esse profissional.
Quais os cuidados para entrar no leito hospitalar da criança?
Todos os materiais utilizados com as crianças devem ser de material lavável. O EVA é o mais usado, é um material que pode ser limpo com álcool, recortado, colado com cola quente, permite conforto para a criança. Brinquedos de tecido e pelúcia não podem ser utilizados de maneira alguma. De um leito para o outro temos que higienizar tudo, então só podemos usar materiais laváveis. Essas informações sobre higienização e tipo de materiais permitidos no hospital são inclusive passadas no curso de pós-graduação pelas enfermeiras do Menino Jesus que ministram aulas. Outro ponto importante é a informalidade do atendimento. Por exemplo, atendemos uma criança de sete anos, com determinado conteúdo programático e um material pedagógico. Saindo desse leito, posso atender outra criança, de outra faixa etária, com conteúdo totalmente diverso. O planejamento é diversificado, feito com começo e meio, sem fim. Não damos o fim aqui, o fim será dado na sala de aula regular dessa criança. Para nós é tudo muito flexível e as professoras têm dificuldades em lidar com nosso planejamento. Elas estão habituadas ao planejamento fechado, com apostilas, onde seguem o caminho dado. Nós não podemos seguir um roteiro, a criatividade e habilidade do pedagogo hospitalar devem ser muito grandes. Atuamos com crianças que têm respostas muito diferentes da realidade a qual estamos acostumados. Temos que adequar nossa ação à doença da criança. Quando ela está muito debilitada e entramos no quarto para aplicar um trabalho, algumas vezes temos que esperar o vômito, a diarréia melhorar, a febre abaixar, para darmos continuidade ao atendimento. Temos que entender o momento adequado para entrar e desenvolver a atuação pedagógica. É preciso tato para perceber quando a crianças está muito debilitada, ou quando ela está com outro profissional da área da saúde.
E que tipo de material é usado no atendimento?
Usamos livros e até notebook. Lembro de um menino com problema renal, e sondamos com ele e com a família quais eram suas maiores necessidades. Eles disseram que o menino não conhecia o mar, e levamos o computador ao leito para mostrar a ele as praias de diversas cidades do Brasil. Trabalhamos assim a interdisciplinaridade, com noções de história, arte, educação física, leitura e escrita, matemática, ciências, através do mar. Ele conheceu praias do Brasil inteiro, a consistência da areia, as tonalidades do mar, foi um trabalho maravilhoso. Quando entramos na sala é uma alegria, as crianças ficam esperando o momento com ansiedade.
Qual a faixa etária atendida pelo trabalho da Pedagogia Hospitalar no Menino Jesus?
Acompanhamos também bebês e crianças que ainda não vão à escola. Com os pequenos, trabalhamos a coordenação motora sempre associada com o lúdico, principalmente porque eles ficam muito tempo no leito. É claro que há as fisioterapeutas, mas nosso olhar é mais pedagógico, sentimos se o cognitivo dessas crianças está preservado. Nosso olhar é todo para a aprendizagem das crianças, voltado para elas descobrirem um mundo novo. Ouvimos também a família, os pais contam suas angústias e criamos um vínculo com eles. Temos experiências emocionais maravilhosas. Uma vez, perto do Natal, havia uma criança internada há alguns dias com uma febre muito alta e não havia um diagnóstico fechado. Mara questionou a mãe se a criança tinha alguma queixa, se havia acontecido algo diferente com ela. Quando ela perguntou para a criança, ela disse que tinha muita vontade de comer um pastel de carne. Eu perguntei para a nutricionista se ela poderia comer um pastel. A nutricionista liberou, trouxe o pastel e a febre da menina baixou. Aprendemos muito também, recebemos um público com as mais diversas carências, de família, cultural e emocional.
Quais os casos mais comuns atendidos pelo hospital e como lidar com a doença e a dor da perda?
O Menino Jesus atende muitos pacientes que passam por transplantes de rim e fígado e casos de anemia falciforme (uma doença genética, hereditária, que causa dores no corpo todo, e por isso a criança fica afastada da escola por períodos). Quando perdemos uma criança a dor é muito grande, temos que dar o nosso ombro para os pais chorarem e sabemos que a dor deles é ímpar.
http://pedagogiahospitalarsp.blogspot.com
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